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20/07/2026
Mais de quatro décadas dedicadas à neurologia: a trajetória do médico Celso David Lago
Atualmente como Diretor Técnico do Hospital Santa Terezinha, o médico ajudou a estruturar a neurocirurgia em Erechim, acompanhou grandes transformações da especialidade e vivenciou alguns dos principais avanços tecnológicos da medicina moderna
Poucas pessoas acompanharam tão de perto a evolução da neurocirurgia em Erechim quanto o médico e Diretor Técnico do Hospital Santa Terezinha, Celso David Lago. São mais de cinco 50 anos à medicina e mais de 30 anos atuando diretamente em cirurgias neurológicas, período em que testemunhou transformações que mudaram completamente a forma de diagnosticar e tratar doenças do cérebro.
Sua história profissional se mistura com a própria consolidação da especialidade na região. Formado em Medicina pela Universidade Federal de Pelotas em 1974, Lago seguiu para o Rio de Janeiro, onde realizou seis anos de formação em Neurologia e Neurocirurgia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Mais tarde, aprofundou seus estudos durante dois anos na Inglaterra, na Universidade de Londres, experiência que marcaria definitivamente sua carreira.
Ao concluir a especialização, mesmo com propostas para atuar em grandes capitais, optou por retornar a Erechim, motivado a ficar perto da família e a manter vínculos com amigos que manteve mesmo durante todo o período que esteve fora. "Naquele momento praticamente tudo estava sendo construído. Havia muito trabalho pela frente, já que faltavam materiais, equipamentos, estrutura e diversos serviços especializados ainda precisavam ser implantados para podermos atender casos de neurologia", recorda.
Construindo uma especialidade
A chegada da neurocirurgia representou muito mais do que a incorporação de uma nova especialidade médica. Exigiu investimentos em infraestrutura hospitalar, na criação de leitos de terapia intensiva, na qualificação dos centros cirúrgicos e na aquisição de equipamentos capazes de oferecer diagnósticos mais precisos.
Segundo o médico, a implantação da neurocirurgia impulsionou uma nova etapa da assistência hospitalar em Erechim. "Era indispensável contar com uma UTI preparada para receber esses pacientes, além de um bloco cirúrgico adequado. Depois vieram os equipamentos para arteriografia e, posteriormente, a aquisição do primeiro tomógrafo. Tudo isso só foi possível porque as direções dos hospitais compreenderam a importância desses investimentos ao longo dos anos", afirma.
Durante aproximadamente uma década, ele foi o único neurocirurgião atuando de forma permanente na região. A rotina era intensa e concentrava praticamente toda a demanda dos casos neurológicos de Erechim e municípios vizinhos.
Com a chegada do irmão, o neurocirurgião Paulo Lago, o serviço ganhou reforço. Anos depois vieram novos profissionais que aumentaram a capacidade e a complexidade dos casos atendidos em Erechim. E esse crescimento também reduziu significativamente a necessidade de encaminhamento de pacientes para outros centros. "Antes, muitos casos precisavam ser levados para Passo Fundo ou Porto Alegre. Hoje ainda existem situações específicas que exigem esse encaminhamento, mas conseguimos resolver aqui uma parcela muito maior dos casos, mantendo os pacientes próximos de suas famílias, que também é algo muito positivo para a recuperação deles", destaca.
A experiência internacional que mudou sua visão da medicina
Outro momento decisivo de sua trajetória aconteceu na Inglaterra. Incentivado por um médico que já havia estudado no mesmo hospital, Lago conquistou uma bolsa de estudos na Universidade de Londres, que lhe garantiu moradia, alimentação e formação em uma das instituições que mais contribuíram para a evolução da neurocirurgia mundial.
Além da vivência acadêmica, encontrou um ambiente preparado para receber profissionais de diferentes países. Antes mesmo de iniciar as atividades, participou de um programa de capacitação em língua inglesa oferecido pelo próprio hospital, juntamente com estudantes de outras nacionalidades. E foi justamente durante esse período na instituição, em 1981, que a tomografia computadorizada teve uma evolução significativa.
Na época, talvez não fosse possível imaginar o impacto daquela tecnologia. Hoje, olhando para trás, ele considera aquele um dos maiores saltos da medicina moderna. "Antes da tomografia, muitas vezes era necessário abrir o crânio sem saber exatamente o que encontrar. Existiam exames que auxiliavam, mas ainda havia muita incerteza. A tomografia transformou completamente essa realidade.", explica.
Segundo ele, hoje a ressonância magnética e os exames de imagem passaram a oferecer informações cada vez mais detalhadas, permitindo identificar tumores, infecções, hemorragias e diversas outras alterações cerebrais com elevado grau de precisão.
Uma nova missão dentro do Hospital Santa Terezinha
Após mais de três décadas dedicadas ao centro cirúrgico, Lago deixou a rotina das cirurgias e passou a concentrar sua atuação na Direção Técnica do Hospital Santa Terezinha, acompanhando os desafios da assistência hospitalar e da gestão dos serviços. Hoje, acompanha diariamente a organização da assistência, os fluxos internos e os desafios de uma instituição que atende pacientes de mais de 30 municípios da região Alto Uruguai.
Para ele, manter a qualidade do atendimento exige investimentos constantes em tecnologia, estrutura e qualificação das equipes. "A vida não tem preço, mas a saúde tem custo. Novos medicamentos, equipamentos e exames exigem investimentos permanentes para que possamos continuar oferecendo um atendimento seguro e de qualidade para toda a população", ressalta.
Das primeiras descobertas ao diagnóstico por imagem: a evolução da neurologia
Antes mesmo de relembrar a própria trajetória, Lago faz questão de contextualizar como a neurologia chegou ao estágio atual. Segundo ele, a neurologia moderna começou a ganhar forma ainda no século XVII, com os estudos de Thomas Willis sobre a anatomia do cérebro, em um período de grande desenvolvimento científico na Inglaterra. Em uma época marcada por fortes restrições religiosas, o estudo do corpo humano enfrentava inúmeras limitações, tornando cada descoberta um avanço significativo para a medicina.
Nos séculos seguintes, França e Inglaterra lideraram importantes pesquisas que permitiram compreender melhor o funcionamento do sistema nervoso. Na década de 1930, surgiu a arteriografia cerebral, primeiro grande exame capaz de visualizar a circulação sanguínea do cérebro. E mais tarde, a tomografia computadorizada que revolucionou o diagnóstico neurológico.
Sobre a relação entre a ciência e a fé, segundo ele, o avanço dos estudos sobre o cérebro permitiu compreender muitos aspectos da mente humana, mas sem diminuir o papel da fé na vida das pessoas. “A ciência chega até certo ponto e diz: ‘A partir daqui eu não consigo mais explicar’. E é quando a fé se fortalece, porque ela não precisa de explicações ou provas. As duas fazem parte da experiência humana, mas seguem caminhos e funções diferentes na vida do indivíduo”, destaca.
Para o médico, essa evolução demonstra que a história da neurologia é resultado da união entre ciência, tecnologia e formação contínua dos profissionais. Uma caminhada iniciada há séculos e que continua sendo escrita diariamente dentro dos hospitais, sempre com o mesmo objetivo: oferecer diagnósticos mais precisos, tratamentos mais seguros e melhores resultados para os pacientes.
Fotos: Georgia Spilka – Comunicação FHSTE
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